“Se pudesse desmontava os televisores nas casas moçambicanas e colocava uma pequena biblioteca”, Japone Arijuane

Rezam as sagradas escrituras que tudo iniciou-se através do verbo, e do verbo vieram todas as coisas. É neste sentido, que para este mês de Março a VIVA! traz como personalidade , alguém que usa faz o uso do verbo para expressar os seus sentimentos através da escrita. Chama-se Japone Arijuane e é com que conversamos sobre literatura e sobre a sua recente obra intitulada “ferramentas para desmontar a noite”, lançada a 25 de Fevereiro. Acompanhe nas próximas 12 perguntas a nossa conversa.

Quem é Japone Arijuane?

Olho para mim como uma porta que se abre ao infinito. Um poema ainda por se escrever. Um armazém de ferramentas inatingíveis. Um eterno aprendiz da vida.

Como é que entra para o mundo da Literatura?

A literatura é que invadiu o meu mundo. Eu apenas queria ser mais um ignorante em demanda, que verga casaco e gravata e diz ser intelectual, talvez assim minha vida fosse mais interessante.

Há quanto tempo escreve?

Escrevo desde que me entendo por gente (risos). Escrevo todos os dias que acordo. Escrevo para me mante vivo. Escrevo com os olhos, escrevo com a alma, escrevo com imaginação. Escrevo até a dormir. Minha vida é a escrita.

A sua primeira obra chama-se dentro da Pedra ou as metamorfoses do silêncio, de quê tratava?

A obra é de poesia. Trata da metamorfose do silêncio: essa psicose que são os moçambicanos (as pedras) têm de recorrer sempre (metamorfose) em não falar (silêncio) o que lhe vêm da alma por medo de perder o pão.

Houve alguma readaptação de uma obra para a outra?

 

Não houve nenhuma readaptação. Nesta segunda obra trago ferramentas para desmontar a noite. A noite a que me refiro na obra se chama Moçambique. Afinal, quando é que vai amanhecer para nós? Nós que vivemos nas bermas da vida? São essas e outras perguntas que o livro faz e as responde.

Numa de suas entrevistas disse que esta última é uma obra que sempre quiseste ler. Porquê?

Pois é! Este é um livro que sempre quis ler. Porque nunca encontrei em lugar algum, decide escreve-lo. Parei de criticar a poesia que se diz e resolvi escrever a poesia que se dança.

Como avalia a actual literatura nacional?

Não avalio e nem posso avaliar. A literatura é uma coisa invariável. Cada escritor, cada poeta tem sua literatura e a sua poesia. Tentar avaliar a literatura é tentar limita-la e rotular, e eu não gostos de rótulos.

Sobre a recente obra disse que há muito que queria ler uma obra assim. Como escritor e estando numa sociedade onde queixa-se muito da fraca leitura por parte dos jovens, acredita que a falta de obras que sejam do interesse de cada jovem possa estar por detrás dessa fraco gosto por leitura?

Não. Não há falta de obras de interesse de cada um. Existe sim a falta de pão, o que origina falta de interesse pela leitura. Um homem faminto não pode ler e compreender o que lê. E esta falta de pão é originada pela má distribuição da riqueza  (governação), que por sua vez origina falta de cultura, por isso a literatura é elitista. Nesta vertente olhemos para o elitismo como o cultivo da mente e não do estômago, como muitos fazem.  O perigo da falta de leitura é o que estamos a viver hoje. Pessoas que lutaram para ter pão e esqueceram-se de cultivar-se, e único meio de cultivar-se é mergulhando na leitura.

De que forma acha que se pode mudar este cenário e por mais pessoas a ler?

Com planos de leituras levados a sério, construção e apetrechamento de bibliotecas nas escolas e bairros; com mais feiras de livros a nível dos distritos; com mais incentivos aos escritores e editores; com mais orçamento para compara de livros; com mais lançamentos de livros; com mais programas de literatura na televisão, não essa coisa fútil que dizem ser declamação que as vezes vejo. Porém, para que isso se materialize, deve haver uma espécie de decrecto lei e exemplos cimeiros, não adianta ler um livro se o seu chefe, que é sua inspiração económica e financeira, lê apenas rótulos de whisky. Precisamos de referências.

Quanto tempo levou para escrever a obra e quais foram as tuas principais inspirações?

Todos livros que lanço estão escritos em mim, ou seja, tenho esse livro escrito há trinta e tal anos e a minha grande inspiração é a própria vida, sobretudo a infância. O meu processo criativo é introspecção, uma volta a mim mesmo.

Quais são as suas ambições?

Não tenho ambição, porque “um ambicioso é capaz de tudo, vender a pátria e tudo, não sei se um ambicioso muda, mas pela minha experiência prova que não, só muda de táticas”.

Ao nível da sua arte que é a escrita, se pudesse mudar algo, o quê seria e porquê?

A escrita é uma revolução. Um acto de coragem. Quem escreve deve preocupar-se única e exclusivamente em escrever bem. Se pudesse mudar algo desmontava os televisores nas casas moçambicanas e, em compensação, colocava uma pequena biblioteca. Eu já comecei com essa revolução, não tenho televisão em casa faz muito tempo.

Japone Matias Lourdel Caetano Agostinho nasceu em 1987, em Maganja da Costa, província da Zambézia. Publicou “Dentro da Pedra ou a Metamorfose de Silêncio” (2014), prémio revelação pelo CEMD-Lisboa. Membro fundador do Movimento Literário Kuphaluxa. Formado em Publicidade e Marketing, pela Escola Superior de Jornalismo-Maputo.

JOIN THE DISCUSSION

sixteen − 5 =