“Ou deixamos as nossas raízes sumirem por completo ou fazemos alguma coisa”, Sista Beauty

Ela é uma pessoa versátil como preferiu se auto avaliar. Chama-se Beauty Alves Sitoe, mas em meandros artísticos é conhecida como Sista Beauty. Foi na última edição do “Ngoma Moçambique” vencedora do primeiro lugar. Toca e dá aulas de Mbira. É proprietária da marca de joias artesanais Nkoka. Produz sabonetes. É com esta Mulher de 1001 talentos que a VIVA! conversou.

Quem é Sista Beauty?

Chamo-me Beauty Alves Sitoe. Sou a mais velha de 4 filhos. Mãe de dois filhos. Sou uma artista, educadora, saboeira, produzo joias africanas feitas de forma artesanal (pau-preto, palha e sementes), que vendo através da minha marca Nkoka.

A Beauty artista (música) quando é que começa?

Comecei a cantar muito cedo. Já cantava aos cinco anos de idade, mas na minha pré adolescência tenho o meu contacto com ópera através das novelas e imitava, mas começo a cantar profissionalmente em 2011 com uma banda de Reggae de nome “Black Liberation” e foi aí onde nascei o sista porque é assim que eles tratam-se habitualmente por brothers e sisters. Em 2012 comecei a trabalhar com a Jazz P e o Ras Skunk e fomos até 2015. Desse ano até 2017 fiz uma pausa que na verdade para mim era definitiva, não queria mais cantar.

Porquê. Alguma decepção?

Sim foi decepção. Não mais por experiência própria, mas por histórias que eu fui vendo em pessoas próximas e eu não queria passar pelo mesmo. São injustiças que sofrem muitas vezes por parte dos organizadores dos eventos. O artista faz o seu trabalho, mas na hora da sua remuneração, este mesmo artista é que tem de ir atrás. São coisas que infelizmente não se fala muito, porque o artista tem que aparecer sempre bonito, e infelizmente acontecem com aristas que vêm de uma classe social mais baixa. Em algum momento funciona a questão nome e o talento fica de lado. Não se olha as coisas tipo se a tua arte me agrada vou me alimentar dela não importa se tu és gay, pobre ou rico. Foram muitas coisas, que fui vendo as quais me machucaram muito, mas o dom falou mais alto e retomei em 2017.

Pelo que vemos nas suas redes sociais, percebe-se que é apaixonada por instrumentos tradicionais. Como é que percebe este gosto por estes instrumentos?

Eu nasci e cresci na África do Sul até aos nove anos e na escola existiam alguns programas de ensino, mais para o lado artístico e a música foi um dos programas pelos quais me apaixonei, e neste contexto explorava-se muito os ritmos indígenas e é assim que ganho o gosto pelos instrumentos tradicionais. Já na minha adolescência escutava músicos como: West Life, Back Street Boys, Britney Spears que exploravam a realidade deles e eu comecei a sentir essa crise de identidade e percebi que eu também como artista tinha de trazer com a minha arte uma narrativa diferente e resgatar a identidade africana de alguma forma e encontrei isso nos instrumentos tradicionais. Estamos num momento em que somos a geração que irá decidir o futuro, ou nós deixamos as nossas raízes sumirem por completo ou fazemos alguma coisa.

Actualmente trabalha com crianças em condições, que não são das melhores. Como é ter que gerir o pouco material que existe para várias crianças?

Neste momento estamos a trabalhar com dinâmicas musicais e alguns jogos. No dia em que levei a Mbira até elas percebi que ficaram bastante motivadas e senti que para que o aprendizado seja eficaz seria necessário que elas tivessem um instrumento para que pudessem praticar. Não paramos com esta parte do projecto, mas decidimos focar neste momento trabalhar com os recursos que temos. Estou a trabalhar com mais duas amigas, que em breve serão licenciadas pela música, e estamos a introduzir a pauta musical, porque queremos que eles tenham conhecimento da música no seu todo, porque muitas vezes esta é vista apenas na vertente do entretenimento, quando é uma ferramenta para várias coisas.

Quais são as suas principais ambições?

A minha principal ambição é me estabelecer financeiramente pelo meu bem e dos que me rodeiam. Mas eu ambiciono intervir socialmente nas comunidades porque também fui uma criança que cresceu num bairro, onde as poucas coisas que tinham eram precárias. Pretendo muito advogar pelos direitos da criança, porque esses factores são determinantes para o ser dessa criança nas fases subsequentes.

Estando a lidar com crianças através do ensino da música sente que já está a exercer essa advocacia, sobre elas?

Eu acredito que sim. Acredito também que estou a quebrar um estereótipo que se tem pelo artista. A imagem que se tem do artista principalmente nos bairros é de uma figura marginalizada. Depois de um tempo questionei-me porque é que se marginaliza o artista e fui percebendo que há falta de referências. As referências que temos são de artistas que são dependentes de alguma droga e como artista nasceu-me essa consciência de que devo quebrar esse estereótipo. Há casos em que deparamos com mães que têm algum receio então é preciso também levar essa tranquilidade. Temos de namorar as comunidades porque estamos a introduzir algo que elas desconhecem.

Na última edição do Ngoma sagrou-se vencedora, o quê ditou este resultado?

Muito trabalho. Em tudo o que nós fazemos temos que nos aplicar. Mas confesso que não esperava, porque antes de entrar no Ngoma quis saber de algumas pessoas sobre como as coisas funcionavam e não me senti empolgada pelo que ouvi. Falou-se muito da questão das “costas quentes”, e eu olhava para mim e dizia para mim mesma que não tenho nome, mas ainda assim me apliquei e deixei tudo nas mãos do destino.

Depois do prémio já não há motivos para desistir?

Não há motivos (risos).

Nalguns temas cantas sobre o empoderamento da Mulher. Como é para si trazer esse tipo de conteúdos numa sociedade ainda considerada machista?

É um desafio muito grande. Digo isso não só como artista, mas como mulher. Sinto que a mulher ainda não ganhou o seu espaço. É uma luta muito grande porque não são apenas os homens que devem ser sensibilizados, mas as mulheres também porque existem ainda muitas mulheres machistas e neste nosso contexto africano isso se sente com muita facilidade, porque são coisas que começam mesmo dentro de casa.

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