“Somos uma banda que revolucionou a música jovem moçambicana, e sentimos que esse papel ainda está sob a nossa responsabilidade” Roberto Isaías, integrante dos Kapa Dech

É um dos fundadores e integrantes do grupo musical Kapa Dech que recentemente regressou aos palcos depois de quase dez anos de pausa. Roberto Isaías revelou à VIVA! parte dos planos que este grupo, que é referência na música moçambicana,  tem para 2019. “Temos planos de lançar um disco, do qual já estamos a preparar as músicas”, adianta. Os Kapa Dech têm também agendado um grande espectáculo para Março, na Praça da Independência, no qual irão fazer uma retrospectiva daquilo que foram desde os Pétalas Amarelas até ao presente momento, e uma perspectiva do futuro. Pelas palavras do músico, este será um grande evento, no qual serão convidados artistas que directa ou indirectamente estiveram associados ao Kapa Dech.

É integrante dos Kapa Dech, mas tem também uma carreira solo… Qual é a saúde da sua carreira?

Regressei para o Kapa Dech, mas continuo a fazer carreira solo, esta que irá continuar, sendo que terei que ter muito cuidado para não entrar em choque com Kapa Dech. Vou fazendo uma e outra coisa, porque não posso parar de cantar, o Roberto Isaías é uma marca. Todos os elementos da banda têm projectos pessoais, desde que respeitem a banda como prioridade para que não voltemos aos erros do passado.

Como foi o regresso dos Kapa Dech depois de quase uma década de pausa?

Realizamos alguns espectáculos que simbolizavam o nosso regresso. Fomos bem recebidos. É um projecto que ficou sensivelmente 10 anos na gaveta. Havia muita expectativa e pressão social, por as pessoas considerarem o grupo um produto que dignifica Moçambique não só dentro do território nacional. A nossa primeira aparição aconteceu no Festival do Tofo. Actuamos também na Conferência Anual do Sector Privado, organizada pela CTA. Estivemos no AZGO e no Bushfire (eSwatine) e participamos também no Festival ‘a luta continua’. Fechamos o ano em Inhambane, no Festival da Barra, no dia 10 de Dezembro.

O que esteve por trás desta quase uma década de pousa deste agrupamento?

Como qualquer instituição ou empresa, há sempre desentendimentos que nalgum momento causam roptura. Contribuiu também a perda que tivemos de dois elementos do grupo: o Tony Django e Pilecas. Tentamos agora fazer uma pequena remodelação. Temos a Sizaquel Matlhombe que substituiu o Tony, e o Pimenta que está como percussionista. O resto do pessoal mantém.

Como sentem que a banda foi recebida 10 anos depois?

Não tivemos muito receio de não sermos recebido, porque as músicas sempre estiveram a tocar, e as rádios e televisões sempre passavam. As músicas eram tocadas nas festas, espectáculos. Os Djs nacionais felizmente têm tocado as nossas músicas. Sentíamos a euforia do público sempre que a música tocasse, isso serviu de incentivo para que regressássemos. Sem contar o decréscimo que temos vindo a observar em termos de espectáculos ao vivo. Na minha opinião, as músicas estão muito monótonas, sentimos que o povo merecia mais diversidade. Se olharmos para as músicas que tocam hoje em dia, parece que apenas a letra varia, mas a instrumental é sempre a mesma. Parece um copy/paste de instrumentais. Este fenómeno também motivou-nos a voltar. Somos uma banda que revolucionou a música jovem, depois dos Ghorwane e de outros agrupamentos. Sentimos que esse papel ainda está sob a nossa responsabilidade. Sentimos que se ficássemos por fora estaríamos a contribuir para que a má qualidade prevalecesse. É também uma forma de pressionarmos os artistas a trabalharem mais.

Na sua opinião o que faz com que haja essa ‘repetição’ de instrumentais?

Penso que o público consumidor tem um pouco de culpa nisso e a própria media que toca mais isso. Um produto pode até não ter qualidade, mas quando é sempre servido ao consumidor, este acaba acatando. A maior parte dos jovens músicos olha para isso como uma saída e consequentemente, a percepção que se tem é de que é isso que o público gosta de ouvir em detrimento de produtos e composições mais elaborados. Temos bons compositores e produtores em Moçambique. Neste aspecto de arranjo e composição musical posso considerar que tivemos um pequeno decréscimo, apesar de a indústria de espectáculos ter crescido, e isso é um pouco frustrante para os produtores destes espectáculos. Não está a haver proporcionalidade entre o crescimento da qualidade e da produção. Estão de parabéns os promotores de evento, que apesar da crise económica que também afecta a indústria musical ainda conseguem organizar eventos.

Como é que a Sizaquel se está a sair no lugar do Tony?

Isso é como no futebol, em que cada um tem o seu espaço, talento, por isso há sempre comparações. É indiscutível que a voz do Tony é única, ele tem um timbre e tenor por excelência, que dificilmente alguém conseguirá imitar, mas o importante é a interpretação, nisso ela se está a sair muito bem. A Sizaquel é uma experiente cantora e não está a ter muita dificuldade em aproximar-se ao que o Tony era. Mas também isto é uma banda, por isso não se destaca uma ou outra pessoa.

Fora da banda, como tem conduzido a sua carreira?

Continuo a fazer os meus trabalhos, sem pôr em causa o compromisso com a banda. Também faço parte do pelouro da Cultura e Turismo, na CTA. Tenho estando a contribuir com aquilo que sei em indústrias criativas, para melhorar o ambiente de negócios na área das indústrias culturais. Essa foi uma das coisas boas a destacar que aconteceram este ano. Há alguns anos, o nosso discurso era “não há vontade política” para a estruturação das indústrias culturais criativas, mas felizmente o governo incentivou-nos a ter uma participação na CTA para que contribuíssemos na melhoria do ambiente de negócios. Tentamos atrair o sector empresarial a olhar também para a cultura e não apenas no agronegócio e outras áreas. Queremos que olhem para a cultura como uma boa área para também fazer negócio. Em termos culturais podemos destacar a celebração dos 200 anos da Ilha de Moçambique, o Festival Nacional da Cultura realizado em Niassa, melhoria dos grandes espectáculos que acontecem no país, o Azgo e o zouk, que apesar de ser um evento não da minha linhagem tem contribuído bastante para a promoção da imagem de Moçambique.

JOIN THE DISCUSSION

four × 5 =