Messias Maricoa “… O que cai na graça do povo, ninguém tem como mudar…”

A história deste músico começa em Nampula, sua terra natal. Ainda pequeno sofreu influência de alguns membros da família, que também cantavam. Messias Maricoa até tentou ser actor, mas foi na música que descobriu o seu real dom de tal maneira que hoje esta arte já lhe faz explorar o mercado europeu. Em conversa com a VIVA!, Maricoa, de apenas 23 anos deu uma visão geral do estágio da sua carreira

 

Onde se encontra actualmente e qual tem sido a sua rotina?

Neste momento encontro-me em Portugal. Divido-me entre Moçambique e Portugal. Mas quando estou cá torna-me fácil expandir-me para França, Luxemburgo, Suíça. Tenho interesse em Angola, Cabo-Verde, São Tomé e Príncipe, Estados Unidos. Estamos a criar condições, em termos de documentos, para que isso aconteça. Sou uma pessoa disponível para actuar em qualquer lugar do mundo.

Onde tem estado mais tempo, em Moçambique ou fora?

Vivo em Moçambique e fora de uma forma igual. Na maioria das vezes passo três meses em Moçambique e igual período fora.

O que tem estado a fazer além de cantar?

Sou cantor e também estou a licenciar-me em Psicologia Social e das Organizações. Por algum momento a música teve que me pôr concentrado. Fazia faculdade presencial, mas tive que interromper e criar condições de fazer à distância. Desde pequeno sonhei em trabalhar em qualquer área que tivesse a ver com psicologia, mas vejo que a música falou mais alto, mas no dia que eu puder ter as duas coisas juntas será muito bom. De momento estou na música, sendo por essa razão que também estou a formar-me nessa área.

Quem tem sido o seu principal público no mercado europeu?

No mercado europeu o meu principal público tem sido uma mistura de brancos e negros oriundos de vários países africanos. Mas concretamente em Portugal, a maioria tem sido portugueses.

Que temas têm sido mais solicitados?

‘Nhanhado’, ‘so te olho’, ‘madoda’ e ‘gago’.

Nota-se, nos últimos tempos uma certa tendência de jovens artistas emergentes recorrerem ao mercado europeu para mostrar o seu talento e o Messias é um dos exemplos. O que está por trás deste fenómeno?

Noto que hoje em dia os jovens estão com muita ambição, desejam também esta oportunidade de estar na Europa a mostrar o seu trabalho. É um sentimento normal, no lugar deles também sentiria a mesma coisa. Falando especificamente de mim, diria que sou um artista com um dom e anexo isso ao trabalho que faço, com muito esforço e sacrifício. Vou atrás de um bom produtor, agente, sendo que a criatividade e a letra são por minha conta. Tenho notado que alguns artistas gravam uma música e logo correm atrás de um produtor português. Não acho que essa seja o caminho a seguir. Sou da opinião que em tudo o que cai na graça do povo ninguém tem como mudar. Tive pessoas que se interessaram por mim, convidaram-me e cá estou. O fenómeno é este. Não sou o melhor, mas acredito que seja um dos melhores. Sou um fenómeno, não mais que ninguém, mas sou um fenómeno. O que tem que acontecer é isto, trabalhar, criar boas ideias, ter bom empenho de marketing, expansão da música, qualidade de estúdio

Foi vencedor do premio mais kizomba, qual foi o seu sentimento?

Foi das melhores coisas que aconteceu na minha vida. Provou que valho neste em Moçambique, que sou um artista que representa este país. Os meus pais ficaram muito orgulhos por isso, não só eles, a família toda, os fãs e o país no geral. Fui uma prova de que nós fazemos e trabalhamos.

Tem algum projecto musical ou pessoal à vista?

Tenho muitos projectos musicais, os quais prefiro manter em segredo, pelo menos por hora.

Pode nos contar como entrou na música?

A minha história começou em Nampula, minha terra natal. Entrei na música por influência familiar, apesar do dom que sempre tive. A minha família já vinha cantando, principalmente a minha irmã mais velha e a minha mãe. Já vinha cantando em casa, na família, mas só em 2011 começo a me juntar a alguns amigos. Tinha colegas que eram também vizinhos. Eram amigos com os quais convivia e eram também colegas da escola. E assim me foi fácil ganhar força porque eles, além de cantarem comigo também me incentivavam. Íamos sempre para casa de um amigo que tinha um estúdio no quarto e acabamos criando o grupo AMS – music, ‘Amigos do Mesmo Sangue’. Éramos um dos melhores grupos da escola. Sempre que houvesse evento éramos convidados. Até vinham pessoas de outras zonas a procurarem saber de nós. Foram praticamente quatro anos a cantar com amigos. Cantávamos mas não tínhamos nenhum retorno. Enfrentávamos chuva e sol, voltávamos sem nada, mas não perdemos esperança.

Em 2015 foi o momento em que recebi um convite de alguém com mais experiência, o Eduardo Benzane, que foi um dos meus agentes. Logo que me conheceu manifestou interesse em trabalhar comigo, pela BZ records, que foi praticamente uma família para mim, devido às pessoas que a compunham, e acima de tudo uma escola que ensinou-me a ter determinação, a acreditar, apostar e ter coragem.

Em 2016 foi o ponto de viragem da minha carreira. Fui convidado pelo meu agente Ricardo Ferreira, com quem estou a trabalhar. Ele foi quem me ensinou e me está a fazer conhecer o mundo.

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Começou a sua carreira em Nampula com o sucesso ‘nhanhado’. Contava que fosse ter o sucesso que teve?

Para mim foi um desafio cantar uma tema que acabou tendo um reconhecimento total. No início não contava que fosse ter o sucesso que teve, embora sinceramente esperasse que fosse ser algo diferente, que despertasse essa certeza para o mundo e mudaria a minha vida de alguma maneira.

Quais eram as suas ambições quando começou a cantar? Que ideia tinha deste mundo da música em Moçambique? Que era um mercado fácil de entrar ou nem por isso?

Tenho sempre ambição de ser um dos artistas reconhecidos ao nível nacional e internacional, por isso é que luto nisto. Antes sonhava também ser um daqueles artistas que na altura eu aplaudia. Mas nem por isso posso afirmar que era um mercado fácil. Precisa de muito trabalho e sobretudo ser objectivo.

Que lembranças marcam os seus primeiros momentos como músico já conhecido nacional e internacionalmente?

Fui sendo convidado para actuar em bares, com muito apoio do povo que estava sempre presente. A baixa remuneração que me davam, para mim era muito significativa. O importante era o amor que o público demonstrava por mim. Já vinha recebendo convites para cantar aqui, acolá, aquilo motivou-me bastante. Conformava-me com o que tinham para pagar, que era significativamente baixo em relação ao que ganho actualmente, mas para mim era muito, serviu de motivação.

Como sente que foi recebido pelos moçambicanos?

A verdade é que fui muito bem recebido pelos moçambicanos. Nunca vão sair do meu coração. São pessoas que me fizeram acreditar que é possível, entraram na minha vida de um momento para o outro. Experimentei e deu certo. Deram-me um voto de confiança e mostraram que aquilo que estava a fazer valia a pena. Os moçambicanos foram e continuam a ser muito importantes para mim. Acarinham-me, aconselham-me, seguem-me, acolhem-me, abraçam-me e amparam-me. Sendo sincero tenho muitos admiradores. Sou também uma pessoa que admira muitos artistas, tento sempre tirar algo bom de cada artista que admiro. Admiro e aprendo com cada um.

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Tem uma irmã cantora, a Filomena Maricoa. Quem dos dois começou primeiro?

Ela foi a primeira pessoa a cantar, e eu o primeiro a entrar em estúdio. Ela cantava quando criança, era uma graça. Era convidada para algumas festas. Foi uma criança que destacou-se em primeiro pela voz que tinha. Nessa altura eu fazia teatro num grupo criado pelo meu pai. Sempre que apresentássemos uma peça ela cantava, mas eu não estava tão aberto para cantar, só o fazia em casa. No meu caso, a influência veio mais da minha mãe e da minha irmã mais velha, a quem era muito ligado e imitava. Copiava mais as músicas sertanejas. Isso não levou muito tempo, até que eu mesmo acreditei que podia cantar. A minha família já começava a incentivar-me, embora eu não acreditasse que podia realmente ser um cantor reconhecido.

Já pensou em fazer dupla com a Filomena?

Confesso que não pensei ainda. Mas se puder haver um bom trabalho, dueto, estou sempre aberto. É uma artista com muita categoria, especialidade, canta muito bem, tenho enorme respeito por ela. Uma música com ela acredito que nalgum momento irei fazer, mas uma dupla pouco acredito.

Com qual cantor moçambicano ou internacional sonha cantar algum dia?

Sempre admirei o trabalho do C4 Pedro e não vou parar de dizer isto. É um dos artistas com os quais sonho fazer uma música. É talentoso e criativo. Não falaria de voz, porque quanto a este aspecto são muitos os artistas que admiro. Gosto também do Anselmo Ralph.

Os seus temas são voltados ao amor/relacionamentos. Alguma razão?

Talvez seja o estilo ao qual estou mais inclinado, não significado que eu esteja a reflectir o que o vivo. É o que o quotidiano vive.

Bilhete de Identidade

Nasci a 24 de Novembro de 1993

Tenho 23 anos

Sou filho de Feliciano Maricoa e Marilia da Paz Pedro Maricoa

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