Lourena Nhate “Não gosto de ostentar, apenas de mostrar gratidão ao povo moçambicano”

Depois de ter lançado, com muito sucesso, a música ‘awu hembi’ no final do ano passado, a jovem cantora moçambicana arrancou o ano de 2017 com mais um tema que promete ser um hino nacional. A música ‘na mbonga papá’, cantada com a participação do autor de ‘sondela’, Ringo, foi lançada há menos de um mês e terá o seu vídeo a estrear no dia 6 de Março. Lourena Nhate é uma cantora de uma voz única, que acredita estar a viver o seu melhor momento de carreira, fase esta que, porque não podia ser diferente tratando-se de uma figura pública, também é acompanhada por algumas polémicas que a cantora comentou com espontaneidade à VIVA!

Lançou há algumas semanas a música ‘na mbonga papá’ que conta com a participação do músico sul-africano Ringo. Fale-nos desta parceria.

lourenaO contacto com o Ringo começou de cá em Moçambique, junto com os meus produtores. Já tínhamos uma ideia do que queríamos, já tínhamos o tema, que seria uma dedicatória a todos os pais que se têm sacrificado pelos filhos. A filha agradece ao pai pelos feitos, desde a infância à fase adulta. Então surgiu a ideia de gravarmos o ‘na mbonga papá’, mas quando começámos a compor sentimos a necessidade de fazer uma colaboração com alguém, que representasse um pai e ainda correspondesseao que a filha diz na música. Um pai que se mostre orgulhoso, satisfeito e grato pelo que a filha conquistou. Daí pensámos e concluímos que a pessoa ideal seria o Ringo, que é um ídolo para mim, uma lenda da música sul-africana. Não só, as músicas dele são geralmente temas que tocam o coração das pessoas, das famílias.

Foi fácil convencê-lo a esta colaboração? Ele já vos conhecia?

Para ser sincera pensávamos que era quase impossível conseguir essa colaboração. Ele não nos conhecia, mas quando efectuámos o primeiro contacto, para a nossa surpresa, ele foi muito receptivo, recebeu-nos com muito carinho embora não soubéssemos qual seria a sua expectativa uma vez que, comparados com ele, somos um ‘peixe pequeno’. A partir desse momento a aflição passou para o nosso lado. Mas para nossa tranquilidade ele mostrou-se uma pessoa muito humilde, simples, pronto para trabalhar. O primeiro contacto foi feito há aproximadamente um mês e logo começámos a gravar.

Onde é que foi gravada a música?

Uau…! Esta música teve uma digressão, posso assim considerar. Primeiro, a base foi desenhada cá em Moçambique, mas sentíamos a necessidade de buscar mais ritmos, algo diferente, internacionalizar a música. Daí que surgiu-nos a ideia de passarmos para a Swazilândia, onde estivemos com alguns produtores locais. De lá passamos para a África do Sul, já com os produtores do Ringo.

Algo que chama a atenção nesta música é o facto da mesma ser direccionada ao pai, fugindo da habitual tendência de muitas músicas direccionarem as mensagens de gratidão às mães. Houve alguma razão?

Realmente temos muitas músicas que falam das mães. É um facto que uma mãe é uma bênção, e temos13087425_1022628734517693_1970800423752708298_n incansavelmente que continuar a ser gratos a ela, mas desta vez senti uma necessidade muito profunda de falar do pai. Porque não? Sabemos que hoje em dia existem pais que sacrificam-se tanto para ver os seus filhos crescerem com saúde, terem uma boa educação. Acordam pela manhã, enfrentam fileiras de ‘chapas’, por vezes nem conseguem ver os filhos ao anoitecer porque voltam tarde. Mas tudo isso para o bem dos seus filhos. Porque não falarmos desse pai? Foi daí que surgiu a ideia, porque graças a Deus também tenho um pai, um pai que sempre se sacrificou para me ver crescer de uma forma humilde, educativa. Basicamente, esta música é dedicada não só a todos os pais moçambicanos, mas principalmente ao meu pai, porque sinto que foi um pai que batalhou para que eu chegasse onde estou.

Olhando para aquilo que está a ser a recepção ao tema ‘awu hembi’ como acha que será com o ‘na mbonga papá’?

Falando concretamente da música ‘awu hembi’ posso considerar que está a ser um hino nacional, cantada por todas as idades e camadas sociais. Mas o ‘na mbonga papá’ é uma música também de muita emoção, e sobretudo de muito sentimento. Olha que só em três dias tivemos mais de 10 mil downloads. As pessoas ligam para felicitar-me, ou porque a pessoa identifica-se com a mensagem ou então porque infelizmente já não tem o seu pai, mas reconhece que em vida ele sacrificou-se.

Sente que este é o momento da Lourena Nhate?

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Sim, sinto que este é o meu momento. Acredito que todos temos o nosso momento. Não adianta corrermos, porque só Deus sabe o momento certo para passarmos para uma outra fase. Acredito que tudo isso, não só tem a ver com o nosso trabalho, mas também com a mão divina. Durante a minha caminhada passei por situações que até me fizeram pensar em desistir, mas felizmente tenhoDeus e as minhas amizades por detrás que sempre me fortalecem. Não há sensação melhor que passar pela rua e ouvir a minha música a tocar. As pessoas estão a corresponder positivamente, estou a ter aceitação em muitas famílias moçambicanas, em muitas faixas etárias. É uma alegria imensa, sem palavras para descrever, mas é isso que me dá força.

A música ‘awu hembi’ tem um trecho de uma canção popular. Essa busca foi propositada?

Sim, foi propositada. Temos várias canções populares, que nalgum momento enquadram-se perfeitamente naquilo que pretendemos. Quando começámos a compor esta música baseámo-nos concretamente nesta canção popular, porque queríamos mesmo atingir uma certa camada, criar um certo sentimento, tendo em conta que a música fala de uma mulher que que admira o amor do parceiro. E é exactamente esse sentimento que pretendíamos transmitir.

Nos últimos tempos a Lourena tem feito aparições de luxo, que contrariam a imagem que alguns fãs têm de uma Lourena simples e reservada. Falamos concretamente do vídeo em que aparece dentro de uma banheira a exibir algumas notas em dinheiro, da sua chegada na gala do vibratoques e da participação num programa de TV calçando sapatos com detalhes de ouro. A Lourena gosta de ostentar?

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Não gosto de ostentar. Tenho dito sempre que nós músicos temos uma dívida com o povo e quando temos êxito naquilo que fazemos temos que saber mostrar gratidão por aquilo que o povo faz por nós. Isso que tenho feito, para alguns é ostentação mas para outros não, porque é uma forma de mostrar a todos os meus fãs que estamos a trabalhar. Eles depositam confiança em mim dia-após-dia, são eles que fazem download das minhas músicas, são eles que vão aos meus concertos, e eles querem ver o que a Lourena está a colher.

Olhando para a crise financeira que o país atravessa, acha uma boa maneira de mostrar a tal gratidão?

Acho, porque penso que não podemos nos basear na crise. Não podemos pensar que a crise é motivo para ficarmos em casa sem fazer nada. Olho para o meu gesto como uma forma de estimular as pessoas a erguerem a cabeça e irem ao trabalho, porque é com sacrifício que consegues o teu êxito. Se eu ficasse em casa, sem gravar música, vídeos por causa da crise o que estaria a transmitir aos meus seguidores, a pessoas que têm a Lourena Nhate como um exemplo? É isso que eu quero transmitir, que ainda que estejamos em crise, temos que nos levantar.

O vídeo feito na banheira com algumas notas tinha a mesma intenção?

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Não. Aquele foi um caso diferente. Foi algo espontâneo, num dia do meu aniversário. Não esperava a repercussão que teve. Acredito que embora artistas somos primeiro cidadãos comuns, por vezes fazemos coisas das quais não imaginamos a repercussão. Estava num momento de alegria, qualquer um pode ter, principalmente quando se trata de uma data comemorativa.

Nalgum momento se arrependeu de o ter feito?

Não. Não estou arrependida. Na verdade não tinha nenhum objectivo com o vídeo.

Em Setembro de 2017, a Lourena publicou uma foto com a seguinte legendafico pensando como pude nascer tão linda’. Esta publicação criou um alvoroço, foi alvo de comentários até certo ponto ofensivos. Como é que lida com isso?

UntitledGeralmente, nas minhas publicações leio todos os comentários, só não tenho o hábito de responder. Relativamente a essa foto lembro-me que gerou uma chuva de comentários. Mas é o seguinte, hoje em dia, falando concretamente da beleza moçambicana, sinto que existem mulheres com falta de estima consigo próprias quanto à aparência e à forma de ser e estar. Quando fiz aquela publicação era uma forma de chamada de atenção, para que as mulheres também possam se exaltar, ter o seu ego como mulheres. Que elas não precisem que alguém lhes diga que são bonitas para se acharem bonitas. Não precisam estar maquilhadas para se sentirem bonitas, tanto que no dia seguinte publiquei uma foto sem maquilhagem com a seguinte legenda ‘linda de qualquer jeito, com ou sem maquilhagem’. A beleza não está só no interior, mas também no exterior. Se tu própria te consideras feia, logicamente que as pessoas também dirão o mesmo. Nessas publicações, a mensagem que eu pretendia transmitir era: ‘nós as mulheres, independentemente do que as pessoas digam, nós, em princípio, temos que ter auto-estima’.

E como reagiu aos comentários negativos?

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É algo que eu já previa que fosse acontecer, mas aquilo não era só por mim, era para muitas mulheres que têm falta de autoestima. Nesta nossa trajectória, sempre nos vamos deparar com situações que nos levem a desanimar. Eu já tinha noção que seria criticada, porque alguns não concordavam com a afirmação que expus na publicação, mas eu sei qual era o meu objectivo. No dia seguinte publiquei propositadamente uma foto sem maquilhagem exactamente para mostrar que independentemente do que as pessoas digam, continuo firme na minha afirmação.

Relativamente ao vestido usado na gala vibratoques, tinha também a noção da repercussão que causaria?

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Recebi muitas críticas sobre o meu traje. Foi um vestido comprado. Quem nunca fez algo que recebesse reprovação das pessoas? Com isso não quero dizer que eu tenha errado. Para mim, naquele momento estava bem apresentada, mas porque somos figuras públicas, é lógico que nalgum momento as pessoas vêem uma e outra coisa, e as críticas são sempre bem-vindas. Não vou estar aqui a dizer que sou perfeita. Se calhar haverá alguma coisa que as pessoas possam ter visto e eu não, mas não constitui motivo suficiente para as pessoas agredirem-me como se tivesse cometido o pior pecado do mundo. Mas entendo, sou figura pública, tenho os meus seguidores.

Saindo dos assuntos polémicos, podia nos falar dos projectos que tem?

São muitos. Vêm aí novos projectos, sobre os quais prefiro não me alongar por hora.

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Bilhete de Identidade

Lourena Nhate, nascida em 1987.

É filha de Elisa João e João Cultate.

É licenciada em Gestão de Recursos Humanos

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