Treino, alimentação e repouso: três ingredientes que levantam qualquer músculo

Corrida, agachamento, peso, barra paralela…objectivo final: buscar por meio da musculação, a melhor formação muscular. O que alguns consideram exagero e demasiado, outros encaram como um corpo com uma definição muscular satisfatória. Assim funciona o fisiculturismo, que tem como resultado, para os mais dedicados, puro charme que desperta todos os olhares e o tão desejado “tanque” na barriga. Que o diga Cazé, de 31 anos, um dos poucos fisiculturistas moçambicanos, e o único que já venceu prémios nesta modalidade.
De nome oficial Castro Barreira José, Cazé, como é carinhosamente chamado, já sonha algum dia tornar-se um icon de fitness (estar em boa forma física na tradução livre) a nível mundial.
O interesse pelos exercícios físicos começou muito cedo. Sempre foi apaixonado por artes marciais, tendo começado a praticar com 10 anos. Mais tarde entrou para a capoeira, o que lhe dá segurança em afirmar que «sempre fui um atleta, alguém apaixonado por desporto, especialmente as artes marciais.»
Foi a paixão pela capoeira que fez nascer em Cazé o amor pelo fisiculturismo. «Fazemos demonstrações de capoeira, e geralmente fazemos de tronco nu, procurando sempre apresentar uma boa aparência. Aí começamos a nos preocupar com o ginásio. Foi assim que comecei a treinar mais, mas nunca com intuito de competir.»
Embora sem intuito, o desafio de algum dia vir a competir estava mais perto do que ele imaginava. O percurso deste fisiculturista ganhou novos rumos durante uma viagem a Durban, África do Sul, quando ia passar a viragem do ano de 2013 para 2014. Se por norma, nesta época do ano as atenções estão para o novo ano que chega, naquela viagem, Durban dividiu as atenções entre Cazé e o novo ano. Os elogios ao até então apenas praticante de capoeira não paravam de chegar. De um lado ouvia «tens um corpo muito bonito», do outro «tens um corpo bem definido, excepcional». E porque alguém precisava dar um final feliz a esses elogios, coube então a «um senhor que perguntou-me de onde era, se participava em competições de fisiculturismo. Respondi que era moçambicano, e sequer tínhamos essa modalidade em Moçambique. Então sugeriu-me a voltar a África do Sul para participar das competições. Trocamos contactos, e ficou de me avisar quando fossem acontecer as competições.»
O convite, que já era esperado pelo fitness não tardou. Em Abril Cazé era solicitado a participar numa competição interna de Durban, que envolvia cerca de 20 atletas.
Segundo explica o fisiculturista, a competição consiste em os concorrentes subirem ao palco de tronco nu e de sunga, onde lhes será avaliado: o aspecto físico, definição corporal, simetria muscular, presença em palco. Tudo é feito como se de uma passagem de modelo se tratasse, com a única diferença de nesta competição o foco serem os modelos e não as roupas, daí ser importante sempre visitar os arquivos de fotos ou vídeos de competições, ou ouvir opinião de terceiros, de forma a identificar possíveis falhas.
«Em todas as competições tento focar-me ainda mais. O bom deste desporto é que não existe um corpo perfeito. Sempre terás que trabalhar algum músculo que esteja desproporcional aos restantes. Ganha no palco quem tiver a melhor simetria. Nem sempre o segredo consiste em ter um corpo “grande”. Há certos músculos que no lugar de aumentar devem diminuir.»
«Foi a minha primeira vez. Não tinha nenhuma experiência». Não tinha experiência? Pelo menos não foi o que os membros do júri acharam. Cazé conseguiu, logo na sua primeira aparição pública e internacional conquistar o tão almejado primeiro lugar. E porque era de se esperar, aqueles elogios inocentes tornaram-se mais fortes, de tal maneira que o atleta fora convidado a mais competições.
Em Maio de 2014 Cazé foi desafiado a se qualificar em Pretória, África do Sul para um Campeonato Mundial, que aconteceria na Coreia. Mais uma vez o atleta não deixou o seu talento em mãos alheias. No meio de tantos concorrentes conseguiu estar entre os quatro que se qualificariam para a competição mundial. Mas quando tudo parecia promissor, veio a desilusão. «Infelizmente não consegui ir a Coreia por falta de patrocínio. Gostava de ter ido para representar o meu país. Eram necessários cerca de 60 mil meticais, que cobririam as despesas de viagem, estadia. Quando voltei a Moçambique tentei submeter cartas de pedido de apoio, infelizmente foi em vão.»
Note-se que esta não é a primeira vez que, pelas mesmas razões um talento nacional perde a oportunidade de brilhar em palcos internacionais. E porque é típico de um herói, e considere-se Cazé um herói, não se deu por vencido. Em Junho mais uma vez rumou à terra de Madiba para disputar por uma qualificação para um Mundial que aconteceria em Las Vegas. «Essa foi a minha maior e melhor competição. Eram 200 atletas de quase toda a África, assistidos por 3 mil espectadores. Conquistei o terceiro lugar, e consequentemente qualificado para o campeonato.» Mais uma vez a desilusão cruzou-lhe o caminho, Cazé não conseguiu ir a Las Vegas. «Se na primeira não consegui 60 mil meticais, imagine-se para Las Vegas, em que o pacote era bem maior. Desta vez nem me dei ao trabalho de buscar apoio. Acho que contribui o facto de esse desporto ser ainda novo em Moçambique. As pessoas ainda não sabem o que é fitness. Também não temos ainda um reconhecimento do Ministério da Juventude e Desportos.»
Embora não conseguindo chegar à meta, pelo menos nesta última competição, pela sua grandeza o evento rendeu uma repercussão que o atleta considera muito boa. «Saí em jornais sul-africanos, em revistas não só sul-africanas, especializadas em fisiculturismo. Deu-me muita visibilidade. Acho que a partir desta competição senti que este é realmente o meu destino. Recebi propostas para representar marcas sul-africanas. Hoje sou patrocinado por uma marca de suplementos alimentares.»
Já na sua quarta competição, que para a sua sorte acontecia mesmo na África do Sul, o Missa Olimpia, em Outubro, foi nomeado o terceiro melhor de África, mas isso é pouco para aquilo que são as ambições do atleta, afinal, ele quer ser o melhor do mundo.
«Foi o meu ano de início, que teve muitas conquistas. Acho que comecei muito bem, representei muito bem o meu país.»
Este ano Cazé será desafiado a mais competições, por isso as atenções aos treinos e a dieta multiplicam-se a cada dia, afinal o atleta quer vingar as duas “baixas” havidas ano passado. A próxima será em Junho, na África do Sul, esta que poderá lhe dar acesso ao Mundial de Las Vegas, evento que acontece uma vez ao ano.
Então Cazé, revele-nos a arma que pretende usar para desta vez não ver o seu sonho condicionado por falta de patrocínio? «No ano passado fiquei em terceiro, desta vez quero ver se consigo ficar em primeiro, porque esta posição dá direito a uma viagem com todo o pacote pago. Quero tentar ir sem ter que depender de nenhum patrocínio.»
Doloroso, mas também saudável
Cazé é cauteloso ao alertar que as coisas não são tão fáceis, neste desporto, a dedicação é exclusiva. É um processo. É preciso dar tempo ao tempo, e este tempo deve estar dividido em, 70% alimentação, 30% treinos e em terceiro lugar está o repouso. Mas será que tal intimida aos mais atrevidos? Cazé revela que não. Hoje em dia o corpo virou uma doença, todo o mundo está preocupado em manter a forma, treinar. «Há muitos jovens a praticarem o fisiculturismo, e alguns nem sabem que aquilo é um desporto, que existem competições mundiais. Só o fazem por hobbie, puro charme. Há pessoas que me têm como referência, pedem dicas, sugestões. Para mim isso é muito bom, dá-me mais força.»
Ao que Cazé fez perceber, a alimentação é muito importante, até mais que o próprio treino. Só para ter uma ideia, Cazé, que é casado e pai de dois filhos, passa quase todo o dia no ginásio a dar aulas e a treinar. Deve se alimentar seis vezes ao dia, no intervalo de três em três horas. Tem litros exactos de água por beber, gramas exactos de carbohidratos, proteínas, fibras. Aveia, claras de ovo, peito de frango, batata-doce, arroz integral, beef são alguns dos alimentos que preenchem a dieta do nosso fitness. Essa alimentação, nem de longe pode incluir gordura, fastfood, refrigerantes, pão branco, glúten. Deve-se optar mais pelos grelhados, cozidos e não fritos.
Quem é capaz de imaginar como é que o nosso atleta consegue dar conta desta dieta tão rigorosa? Simples, é só lembrar do velho adágio popular “por trás de um grande homem, há sempre uma grande mulher”
Pois é, ele mesmo segredou à VIVA! que a esposa é quem prepara as suas marmitas afinal, para uma pessoa que deve se alimentar de três em três horas seria impossível constantemente buscar comida. «Saio de casa com as minhas seis tigelas, porque além do trabalho tenho outros afazeres, e só regresso à noite. Ela tem a paciência de, durante a noite preparar todas as tigelas. Graças a Deus ela está comigo nesta batalha, encara isso naturalmente, sabe que é o desporto que escolhi. Ela é minha cúmplice.» Tão cúmplice que teve que aprender a lidar também com o assédio que seu marido tem sofrido. Cazé assegura que sua vida social é como de qualquer outra pessoa, convive com amigos que nalgum momento lhe pedem dicas, frequenta piscinas ou praias sem nenhum constrangimento.
Fisiculturismo em Moçambique
Cazé e alguns colegas pensam, este ano em desenvolver várias competições internas em Moçambique. No ano passado organizaram uma competição, intitulada “Hardbody”, que teve muita aderência por parte de atletas, tanto femininos como masculinos, infelizmente não por parte de espectadores, talvez pela falta de publicidade. «Foi muito bom, e este ano queremos fazer a segunda edição, com mais publicidade e repercussão. Só assim poderemos alavancar o nome do fisiculturismo nacional.»
Ainda este ano, sua batalha passa por ganhar uma carteira profissional, que lhe vai permitir participar em competições profissionais.

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