Pedalando nas pinceladas de Gemuce

É um dos mais notáveis pintores moçambicanos. Exímio aguarelista, os seus trilhos ultrapassam fronteiras. Com pinceladas subtis mas com uma energia sem igual, a pintura de Gemuce é um retrato social, as vezes tratado num tom irónico, outras com um silêncio profundo que obriga à introspecção.

Falar de Gemuce é falar de um artista dinamizador que para além de oficialmente ensinar as artes, reagrupa no seu dia-a-dia jovens com os quais debate ideias, expõe o seu posicionamento e ajuda levemente na caminhada. Sereno, sempre, com um olhar atento, recebeu a Missanga em seu atelier para conversar um pouco sobre o seu percurso, a sua visão das artes, o seu trabalho, e um pouco do que é “Pedalando”, a sua 13 ª exposição que está em curso no Instituto Camões e que percorrerá algumas léguas, capital afora.
Localizado na avenida Mao-tse-Tung, o atelier de Gemuce é um espaço amplo onde convergem várias modalidades de fazer arte. Com as telas na parede, entre prontas e inacabadas, caixotes contendo peças das instalações já exibidas, ideias em rabiscos e anotações em folhas e cartões. Logo à entrada, o cheiro das tintas, os armários onde de forma organizada se vêem as bisnagas de óleo e acrílicos, os vastos maços de papel, as experiências que ficaram pelo caminho e as que originaram outras ideias, outros partos. Do lado direito, dois triciclos, remetendo-nos logo ao pedal. É este o pedal que nos leva ao remoto ano de 63, quando Quelimane recebeu mais um filho.
Foi entre os 9 e 10 anos que em Gemuce despertou o amor pelo desenho nas areias lisas e brancas de Namacura: «tínhamos um campo de futebol em frente a casa. Lembro-me que saía com um amigo todas as manhãs para desenhar. Os temas eram sempre os normais da infância, desenhar carros, crianças, etc. desenhávamos com tanta avidez que enchíamos todo campo de desenhos. Depois passei a imitar o artesanato que via pela cidade de Quelimane. Pintava em peneiras, inventava sapatos de areia. Era bom nisso e no final os meus irmãos sempre partiam porque sempre ganhava nos concursos que criávamos.»
Filho de pais professores, incentivadores da carreira que hoje conhecemos, Pompílio Hilario Gemuce por ironia do destino também seguiu o caminho dos pais. Com cerca de 18 anos é recrutado para um curso de formação de professores. O auge da guerra dos anos 80 forçou-o a abandonar o distrito onde estava, voltando para Quelimane e ficando assim desempregado. «Os meus pais ficaram assustados em me ver sem ocupação. Eu próprio é que dei a solução quando li num jornal que abria a escola de Artes Visuais em Maputo. Na altura na minha cabeça só havia a vontade de aprender a desenhar, não tinha mínima noção do que é ser artista e eles também questionavam até que ponto isso me ajudaria na vida. Conhecendo a minha febre pelo desenho, aceitaram a minha proposta de vir estudar em Maputo. Porém, havia o problema de não ter parentes que me pudessem receber na capital. Foi um amigo de meu irmão que vivia em Maputo quem me recebeu, fiz o exame de admissão e fui logo admitido.»
Dos desenhos na areia, e o curso nas artes visuais foi crescendo a necessidade de busca do caminho de encontro aos seus anseios estéticos. Foi através de uma bolsa que Gemuce segue para Kiev (então União Soviética) onde fez a licenciatura em Belas Artes e posteriormente, em 1993, o mestrado em pintura de murais na Ucrânia. Em 2000 parte para a cidade das luzes, Paris, para fazer um segundo mestrado. A vontade de olhar a arte sob outro ângulo, levou Gemuce a inscrever-se para Concepção e Gestão de Projectos Culturais na Faculdade de Formação Internacional Cultural, Paris, França. «Foi onde tive um contacto mais lúcido sobre o mundo actual das artes, que de algum modo estava numa fase diferente do que aprendi. Fui beber da arte contemporânea, não como um fazedor, mas como observador, gestor. Tirou – me um pouco do meu processo habitual de criação para um novo estágio, apesar de muitas delas com muita interrogação, porque muita vezes quando a gente aprende, principalmente saindo da universidade pensamos que o que aprendemos é já uma caixa fechada e daí para frente quase não há nada. O que é uma grande mentira, pois as mudanças no mundo são muito rápidas. As escolas é que são sempre atrasadas, o mundo vai mais rápido.» A par desse dinamismo, Gemuce conta que nos colegas em Moçambique, houve parte que não chegou a terminar a formação porque o sistema regia o realismo socialista, que já não fazia muito sentido mesmo porque até as reformas políticas haviam acontecido. Esses colegas, já tinham um olhar avançado. Na altura não se falava ainda do termo arte contemporânea, mas sim de vanguarda. As suas obras já haviam ultrapassado fronteiras, já vendiam para coleccionadores alemães, suecos, norte-americanos, etc. esse ambiente criava muita ambiguidade. Estes artistas já estavam a par da movimentação artística internacional e não fazia nenhum sentido o modelo de ensino a que estavam expostos. Ainda eram obrigados a desenhar com rigidez, uma anatomia muito certa.
Nesta movimentação, imbuído de novas ideias, dinamismo de novos mercados que o contacto com a França lhe deu, com os companheiros Jorge Dias e Marcus Muthewuye funda o Movimento de Arte Contemporânea (MUVART), que por motivos ligados a financiamento encontra-se num certo estado de “letargia”. Essa questão, que é de raiz para qualquer fazedor da arte, não é só problema do Estado. «Dizer só que a mão do Estado é fraca, não seria a forma cirúrgica de se atacar o problema. Mas há uma necessidade de uma forma genérica de se formar a sociedade de encarar a arte não como um assunto de elite. Embora em todo o lado a arte continue sendo elitista. Não sendo a arte um objecto de primeira necessidade, a arte é em parte aquilo que acrescentamos em nós depois de resolver as primeiras necessidades.»
O pintor salienta, porém, que «isso não impede de haver uma educação artística/cultural na sociedade no geral. Por exemplo a sociedade francesa toda tem interação com a arte. Visitar um museu é uma prática normal, começa-se essa educação toda desde a infância, em casa e na escola primária. Esta consciencialização não deve ser só assunto da escola ou família, mas de todos os círculos. Por exemplo os órgãos de comunicação dedicam alguns minutos da sua programação à arte, da forma mais democrática possível.»
Gemuce propõe que o país tenha de maneira urgente políticas claras, meios, e até de maneira uma galeria nacional, uma casa que exponha arte por excelência. «Há um discurso paternalista de que é preciso ajudar os jovens como se os velhos não precisassem de ajuda. Uma galeria dessas criava condições de acesso, em que quem exporia nela seria pelo mérito da qualidade do trabalho. Consequentemente os mais jovens seriam ‘empurrados’ a encontrar ou a apresentar projectos coerentes, bem pensados. Estariam na sala por buscas inteligentes e não por nenhuma política paternalista.»
Quem acompanha a pintura de Gemuce ao longo dos anos, consegue perceber a contínua ideia de movimento, infância e infinito. A pintura de Gemuce é imbuída da ideia de movimento. Desde a forma clássica de movimento como dinamismo, como também a ideia de dinamismo inerente ao tempo. Na presente exposição, este movimento é como se fosse uma afirmação, pois, desde o tema encontrado para ser socialmente repensado, há por detrás de toda a comunicação essa ideia. Para Gemuce «este infinito talvez seja consequência do objecto por representar aliado ao espaço.»
A presente exposição, patente na Galeria do Instituto Camões, é de uma carga vital, e uma forma de olhar a nossa sociedade, desde os meios materiais que dispomos, a vivência como construção diária de uma identidade.
Pedalar na boleia de Gemuce é esse pensar a cidade que o viu nascer, é esse repensar o país, repensar a nossa cultura.

JOIN THE DISCUSSION

1 × 4 =