‘Sempre tive grandes sonhos e não sou homem de desistir’

Yassin Amuji, o primeiro empresário jovem a privatizar um clube desportivo em Moçambique diz ser um homem persistente e de grandes sonhos. Dois anos depois de ter extinguido a equipa principal do Vilankulo FC, afirma que não desistiu do futebol, apenas mudou de filosofia e deixa em aberto o regresso da equipa principal do seu clube às competições profissionais do país.

Numa conversa anterior disse-nos que é um homem persistente, mas há dois anos extinguiu a equipa principal do Vilankulo por descordar do tratamento que se dava ao seu clube no país, sobretudo no Moçambola – o principal campeonato nacional do futebol em Moçambique.

Muita gente pensa que desisti, mas não é verdade. Mudar de filosofia não é desistir. Quando o clube foi fundado há uma frase que eu disse: ‘enquanto correr sangue em minhas veias, o Vilankulo não vai desaparecer’. O clube não desapareceu, estamos a praticar desporto, estamos com 150 crianças na formação. Fomos campeões nacionais de juvenis. Estivemos em duas finais no Nacional de juniores. Estamos focados na formação e na educação desportiva. O que aconteceu é que quando vimos que não havia condições para continuarmos no Moçambola, preferimos recuar. Na altura, éramos a equipa sacrificada do campeonato. Todas as equipas que participavam no Moçambola tinham direito a passagens aéreas, mas nós passámos quatros anos a viajar de autocarro, isto é, 2010, 2011, 2012 e 2013. Isto criou um desgaste não só financeiro para a instituição como também um desgaste físico nos atletas.

Em 2010, gastámos 75 mil dólares que não estavam previstos só para custear as viagens, acomodação da equipa e sua alimentação. Lembro-me muito bem que em 2010 quando entrámos no Moçambola, perguntaram-me se o Vilankulo estava preparado para este campeonato, e eu respondi que ‘ Vilankulo como vila e futebol está pronto para acolher o Moçambola. Resta saber o inverso’. E ao fim de quatro anos, apercebi-me que o Moçambola não estava pronto para receber o Vilankulo. Provavelmente agora já estará pronto porque o ENH está a fazer as deslocações de avião. Agora, há duas coisas que me passam pela cabeça: a primeira é que não tivemos um tratamento igual em relação às outras equipas. A segunda é que sendo uma equipa da Função Pública, o ENH teve facilidades. É mais fácil ter aceitação quando se é um clube da Função Pública. Aliás, grande parte dos clubes que estão no Moçambola é da Função Pública. E fica uma terceira pergunta: ‘será que a política de desporto em Moçambique está a incentivar os privados a investirem ou está a incentivar as empresas públicas?’ Se o objectivo são as empresas públicas estamos no bom caminho. Mas devemos repensar o que queremos do nosso desporto.

Primeiro não acho correcto que sejam as empresas públicas a ter clubes porque fogem da sua principal actividade. Não faz sentido nenhum que os Caminhos de Ferro de Moçambique tenha tantos clubes no país, mas não tenhamos linhas férreas em condições. Temos problemas de transporte, não temos sequer um metro em Maputo. Nas Linhas Aéreas de Moçambique temos problemas de falta de cumprimento do horário dos voos.

Qual é o seu objectivo ao apostar na formação?

É servir o país. Durante o tempo em que o Vilankulo FC esteve no Moçambola, notei que grande parte dos jogadores tem um défice de educação desportiva e escolar. Os jogadores não têm uma projecção da careira de forma ascendente, em que se diz que o fulano atingiu o topo. Na Europa, olhamos para o Ronaldo e para o Messi, por exemplo, e notamos claramente que eles a cada ano estão a melhorar. E quando às vezes pensamos que o jogador já atingiu o topo ele nos surpreende, porque ele mentalizou que deve melhorar sempre.

Em que áreas de negócio tem interesse e está a investir?

Tenho 250 trabalhadores desde armazenistas, fabricantes de blocos, funcionários da pedreira e construção civil. Sempre gostei de experimentar novas áreas e tentar descobrir novos horizontes. Sempre persistente.

Vilankulo é por excelência uma zona turística. Tem investimentos na área do turismo?

Não. Pela experiência que assisti os lodges requerem muita atenção. Esta área precisa de muita dedicação. O operador turístico deve ser muito dedicado. E não invisto nesta área devido ao tempo. Nunca tive muito tempo para focar-me no turismo. Talvez no futuro tenha um investimento nesta área.

O Yassin tem o seu pai como um exemplo. O seu progenitor esteve durante 15 anos como presidente do Município de Vilankulo. Pretende seguir a veia política do Suleimane Amuji?

Não. Em nenhum momento desejei ser um dirigente político. Infelizmente tive um pai ausente durante os 15 anos em que ele esteve como presidente. Ficávamos menos sentidos porque a sua ausência era por um motivo nobre: servir o povo. Mas aprendi muito sobre política ao longo destes anos, e até talvez a entenda melhor que muitos políticos. Na política passa-se de herói a vilão da noite para o dia. Podes até fazer um milhão de coisas boas, mas uma coisa negativa pode levar ao esquecimento de tudo de positivo que já fizeste.

É casado?

Sim. Casei-me em 2004, tinha 21 anos. Tenho três filhos, um rapaz de sete anos, uma menina de oito e um rapaz de cinco.

Que tipo de educação tenta dar aos seus filhos?

A melhor possível, a que tive dos meus pais. Sou o que sou hoje graças à educação que recebi dos meus pais.

Qual é a sua terra natal?

Nasci a 13 de Novembro de 1982, em Chimoio.

Os seus pais são naturais de Manica?

O meu pai e o meu avô são naturais de Vilankulo. E é mesmo por isso que a minha vida toda é lá. Nasci em Chimoio, Manica, porque naquela altura as condições hospitalares não eram muito boas na terra deles. E também porque, geralmente, as mulheres quando estão para ter bebé vão para casa das mães por causa dos cuidados. Portanto, foi também o que aconteceu com a minha mãe.

Eu nasci em Chimoio, mas toda a minha infância, o crescimento todo, foi em Vilankulo. Não há motivos para eu me sentir natural de Chimoio. Não tenho recordações daquela cidade.

Quanto tempo ficou em Chimoio?

Devem ter sido 40 dias, porque depois desse tempo, e logo que a minha mãe esteve em condições de viajar, regressámos para Vilankulo. Portanto, sinto-me como se fosse natural de lá. É mesmo a minha casa, a minha terra.

Que recordações guarda da sua infância?

São muitas. Não tive uma infância luxuosa como muita gente pode pensar por ver o que a minha família tem hoje.

Brinquei como muitas crianças moçambicanas, brinquei à neca, com corda, com carrinhos de arame, etc. Hoje, os miúdos tem carrinhos de controlo remoto, e eles controlam estes brinquedos à distância. Nós não. Tínhamos, os nossos carros de arame, tinham um volante grande, e usávamos caniço para empurrá-los. Esta é uma fase que fica marcada. E foi este crescimento simples que fez com que fosse uma pessoa mais humilde. Aprendi a valorizar as coisas.

Depois tive uma bicicleta, mas a minha infância foi mesmo normal.

Nessa altura, quais eram os seus sonhos?

Sempre fui uma pessoa que queria fazer mais do que fazia. Desde sempre tive sonhos grandes. Em pequeno queria ter um helicóptero. Sempre dizia: tenho de ter um helicóptero. É uma coisa que sempre gostei. Tinha sempre vontade de experimentar um helicóptero. Mais tarde, quando comecei a trabalhar, tracei uma meta: ‘até aos 35 anos tenho de ter um helicóptero’. Faltam três anos, quem sabe até lá terei.

Acredita que conseguirá realizar este sonho? Com o andar dos anos, essa vontade pode ter mudado…

Agora penso em viajar algumas vezes de helicóptero. Já experimentei, e é uma sensação muito boa. Provavelmente já não o queira comprar devido às despesas que isso implica. Podia querer um helicóptero quando ainda era criança porque não sabia que custos isso representaria. Hoje, posso não ter um mas continuar a viajar as vezes que desejar.

Posso dizer que sou uma pessoa muito persistente. Sempre batalhei para atingir os meus objectivos. E em alguns momentos cheguei a discordar dos meus pais, porque eles queriam impedir-me de fazer algo que eu tanto queria. Quando tinha 18 ou 19 anos, queria ter uma moto de quatro rodas – uma pessoa que vive em Vilankulo quer ter esse tipo de coisas – mas os meus pais negavam por causa dos riscos que isso poderia trazer para a minha integridade física. Consegui porque falei com o meu tio para trazer de surpresa a moto. Outra coisa é que desde os meus 14 anos queria ter era uma mota-de-água, mas só consegui tê-la em 2011. Não tive antes pelo respeito aos meus pais que não queriam que eu tivesse. O meu pai não gosta de motas-de-água. Quando comprei, ele não gostou. Contive-me até um certo momento. Mas chega uma altura em que eu quero realizar os meus sonhos. E sempre utilizei a mota de forma responsável. E graças a Deus até hoje não aconteceu nada de grave.

 

E na escola, era um bom aluno?

Era um bom aluno antes de ter muitas brincadeiras na cabeça. Se calhar porque a dada altura deixei de gostar de estar na sala de aulas e ouvir o professor falar de um tema durante 45 minutos. Nunca faltei ao respeito aos meus professores, mas fui muito brincalhão. Como qualquer outro jovem, queria fazer outras coisas para além de estudar. Talvez porque aos 16 anos comecei a dividir a escola com o trabalho.

Que trabalho fazia?

Comecei por vender discos copiados, algo que depois soube que é ilegal, por isso deixei de o fazer. Comecei a fazer cartões-de-visita, calendários, convites para casamentos. Fazia estes trabalhos com o computador que o meu pai ofereceu-me. Fiz todos os convites do casamento da minha irmã. Foram mais de 400 convites. E mais tarde, comecei a desmontar e montar computadores. Assim, aprendi a repará-los. Nessa altura, ninguém reparava computadores em Vilankulo. Passei a reparar computadores de instituições do Estado e algumas ONG’s.

Aos 17 ou 18 anos assinei o meu primeiro contrato de reparação de computadores com a Save the Children. Recebia 150 dólares por mês. E foi assim que comecei a ter veia empresarial.

E foi desta forma que começa a desinteressar-se pelos estudos?

Eu estava na sala de aulas, mas já queria muito mais do que ouvir o professor a falar, as vezes, até de temas que eu já sabia. Geralmente, as pessoas concentram-se muito nos estudos, concluem a sua formação aos 23 anos, mas metade da sua vida foi embora…

Aconselho as pessoas a estudarem, mas ao mesmo a procurarem o sustento muito cedo, pelo menos aos 15 ou 16 anos as pessoas devem batalhar por uma vida independente. Se quer ser médico, comece a visitar hospitais, participar no atendimento aos pacientes, etc.

Qual era o seu sonho de infância?

Queria ser arquitecto. Gostava muito de desenhar. Na sala de aulas, fazia desenhos. Provavelmente ainda vá a tempo de fazer arquitectura.

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