M.P.Bonde – Vencedor do prémio de poesia Fernando Leite Couto “…ao concorrer, o meu objectivo era avaliar os meus textos dentro da prosa poética…”

De um total de 142 candidatos, M.P.Bonde foi o vencedor, com a obra “Descrição das sombras e do silêncio” da primeira edição do prémio literário Fernando Leite Couto. O anúncio foi feito num evento que teve lugar na própria Fundação e contou com a presença de vários convidados e grande parte dos candidatos que disputavam o prémio. M.P.Bonde encara o galardão como resultado das quase 20 décadas de entrega à leitura e à escrita. Das mãos de António Mendes, director da Trassus mobiliários, patrocinadora do prémio, e do presidente da Fundação Fernando Leite Couto, Mia Couto, o poeta recebeu um cheque no valor de 150 mil meticais.

Como está a assimilar esta ideia de ser o vencedor da primeira edição do prémio literário Fernando Leite Couto?

Sendo sincero não me criou grande alvoroço. Se calhar foi mais alívio, por saber que todo aquele simbolismo ou silêncio que houve durante todo este tempo já tinha passado. Do ponto de vista de emoção, não falaria muita coisa, se calhar por conta do percurso, conforme tenho dito. Já estou neste mundo da leitura e escrita há quase 20 anos. A publicação é que é um processo novo, que começou há quase um ano, fora alguns textos publicados em algumas revistas. Este prémio é um incentivo a todo um projecto anterior. Normalmente quando somos premiados espera-se que estejamos efusivos. No meu caso talvez tenha sido pela semana complicada que tive, de mistura de momentos de premiação e de luto, pela morte de uma pessoa muito próxima. Isso pode ter-me afectado de algum modo, de tal maneira que o prémio ou a divulgação do resultado não me tenham criado uma grande emoção. Talvez até ao lançamento do livro vá estar recuperado.

De que maneira pensa preservar este título?

Significa que, acima de tudo não posso estar abaixo do patamar do prémio que me foi atribuído. Em tudo o que fizer, certamente que os olhares serão outros.

O que o terá motivado a concorrer a este prémio?

Tive o primeiro livro, no entanto, precisava de um olhar crítico para aquilo que tenho feito. De um jeito ou doutro, os concursos também servem como barómetro. Tendo sido um dos finalistas e posteriormente o vencedor significa que a crítica está a ver com bons olhos aquilo que tenho feito. Foi uma ousadia ter submetido o meu projecto. O meu objectivo era avaliar os meus textos dentro da prosa poética, trazer uma inovação e ver como é que isso é absorvido.

Sempre escreveu poesia?

Leio muita prosa, até para escrever poesia, mas na prosa não fui para além de algumas crónicas publicadas na minha página. Não é um mundo que, neste momento, pense abraçar, também por conta das técnicas sobre as quais não tenho domínio: o processo de descrição dos momentos, personagens, espaços. A poesia que tenho lido também faz com que permaneça neste género. Ela tem as suas camadas. Todos os géneros têm os seus pontos altos e baixos, no entanto, a poesia continua sendo aquele género com uma tradição milenar, que existe mesmo dentro do conto, prosa, romance, com isso não digo que nunca vá escrever prosa.

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Como é que nascem os seus textos?

Nascem daquilo que sinto, que vejo, dos aromas, luz, estados da alma.

Quando é que começa a ter contacto com a leitura?

Tive a sorte de ter livros em casa. Naquela altura, um menino de 5-6 tinha acesso a livros infantis. Os livros que lia pertenciam aos meus pais, mas também naquela altura tínhamos a possibilidade de fazer trocas de livros nas livrarias ou tabacarias, e a pessoa ia intercalando os livros assim. Hoje isso não acontece. O mais caricato é que precisamente agora, em que o nível de literacia e instrução aumentou, o número de livrarias reduziu-se consideravelmente. Isso mostra que algo não está bem. Tive a sorte de ter contacto com livros, quando não estivesse a ler ficava a ouvir música ou então a brincar com os meus amigos. Na altura a televisão não era o que é hoje, em que uma pessoa pode se ocupar 24 horas vendo televisão ao ponto de esquecer que existe leitura.

Tem dito que tem dificuldade em atribuir títulos aos seus textos…

Muitas vezes receio que o título que vou atribuir não vá corresponder ao texto. A minha sensibilidade pode não ser a do leitor, por isso muitas vezes opto por deixar e o editor é quem tem sugerido e optado por usar o primeiro verso. É algo que não se pode forçar. Qualquer leitor pode atribuir um título, porque a partir do momento em que o livro vai parar nas livrarias já deixa me pertencer.

Como acha que a crítica literária irá receber a sua obra?

23031210_366347697144337_6040426799691544304_nProvavelmente o livro irá ser editado e lançado em Novembro, nessa altura poderemos ter a referida crítica literária, que infelizmente é muito reduzida. O número de pessoas e espaços que discutem literatura é reduzido. Antes existiam jornais, revistas para teciam comentários à volta de uma obra. Hoje essas críticas vão ficando entre amigos, algumas páginas de jornais, redes sociais com vista a abranger-se maior público possível.

De acordo com o júri a obra responde ao que se pretendia, vamos ver dentro de algum tempo, quando o livro estiver nas prateleiras, ele será bem acolhido. Isso é importante, para perceber as dinâmicas. É um projecto interessante, de um estado de alma de um determinado momento, sobre a minha realidade e do mundo que me rodeia.

 

Em quanto tempo foi produzida esta obra?

Foram três meses e é composto por aproximadamente 40 textos. Este é apenas um dos muitos projectos que tenho. Neste momento tenho quase cinco livros. Quando foi lançado o concurso, estava a trabalhar em outros projectos, depois de ver o regulamento foquei-me neste.

Como encara o aparecimento de escritores jovens?

Diria que Moçambique está num período fértil, de qualidade ao nível tanto da música, cinema, teatro, literatura, artes plásticas. É preciso que se segure este momento, porque são artistas com uma outra forma de olhar para a arte, e talvez seja isso que está a dar a qualidade que hoje vemos. Quando vamos a uma casa de pasto, teatro, cinema, exposição ou pegamos um livro, não saímos decepcionados. Estamos num bom momento, de tal maneira que as políticas ligadas a esta área devem corresponder, embora costume se dizer ‘não pergunte o que o teu país faz por ti, mas o que você faz pelo teu país’.

 

*Encontre abaixo dois dos textos que compõem a obra premiada. 

 

À  Mónica Castelo

 

LUZ VERMELHA

Havia (…) em mim, canções inoportunas, melodias que ao alvorecer preenchiam campos neutros. Quase confuso pelo embrutecer da razão, abanei meus neurónios ao sabor da cevada. Fingi conhecer novas métricas, outras Pasárgadas (escondidas no sono) como que instigado pelos mestres das horas mortas.

O Cão do vizinho lambeu meus poemas, afugentou sem assombro parte dos versos cartados no frio da noite. (…), como guardo piscas no tecto dos meus cadernos, acendi a luz vermelha para destilar o fogo dentro das mãos suadas à madrugada.

12:37

18.05.2017

 

NOITE

Ato meus dedos às palavras que se soltam na sombra, revejo neles a infância apedrejada pelo tempo. As sílabas caem às catadupas no orifício da tinta que transcreve o sonho. Não dou nenhuma vírgula por perdida. O suor queimado na esponja onde deixo meu corpo espreguiçar-se, sedimenta a seriedade com que deleito os verões.

Na imensidão do mar que expulsa o medo estão as grades que escondem a memória, os palmares despidos da copra que não mata a sede navegada no barco de sal.

Salto! Imagino a praça recheada de pássaros, corto os raios de sol com a faca encostada aos olhos, a fragância da beleza tinge os lábios da mulher que tacteia no asfalto. Enfim, as pulsações da multidão curvam-se à auréola do desejo.

Queria ter toda a sabedoria do universo, comprar na asa do silêncio todos os sinónimos de vida, para que as vozes que se soltam no interior da alma chorassem o fim dos halos numa cidade por encontrar.

Ato meus dedos a memória saudável do desejo. Oiço vozes trémulas nas minhas costas, lágrimas roçando o rosto envelhecido, tomates esquivando (…) o espaço (…) no cesto que dança na bainha do lenço. Escrevo, porque desses desaires na solidão da noite aquartela-se o esquecimento.

13:35

30.05.17

 

 

Bilhete de Identidade

M.P.Bonde nasceu a 12 de Janeiro de 1980, em Maputo. Foi membro do projecto JOAC e do colectivo Arrabenta Xithokozelo. É autor de duas obras: “Ensaios poéticos” lançado em Fevereiro e “Descrição das sombras e do silêncio” recentemente premiado na primeira edição do concurso literário Fernando Leite Couto.

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