O gemido da areia

O lago Niassa, situado na parte Sul do Vale do Rift, Norte de Moçambique, é um dos mais inspiradores ecossistemas de África. As margens moçambicanas, na província do Niassa, são um santuário de hospitaleira tranquilidade, com potencial para atrair turistas de todo o mundo.

O Nkwichi lodge e a equipa do projecto ‘Manda Wilderness’ investem na região há quase 15 anos. A VIVA! recomenda uma viagem a um dos mais interessantes e remotos lugares de Moçambique

Nkwichi - vista do promontórioHá mil e uma coisas boas que se podem dizer sobre a enorme província do Niassa. E há a poeira. Este recanto noroeste do país não fica exactamente ‘aqui ao lado’: de Maputo a Lichinga por estrada – a opção mais demorada, mas a mais interessante – são quase 3000km; de avião são mais de 10.000 meticais por pessoa e três horas de voo.

Por estrada cada quilómetro é uma prazer, a oportunidade de, de facto, conhecer o país. De estudar a forma como as planuras de Gaza crescem e se enchem com os verdes de Manica, descem para Tete onde se secam – mas não sem antes se metamorfosearem em embondeiros – para, depois de muita rodopiante e alegre poeira, alcançar finalmente o prémio:as brancas areias do lago, que para nós responde apenas pelo nome de lago.

O lago Niassa parece um mar: é quase do tamanho da Guiné-Bissau ou da Bélgica, e tem marés. Navegá-lo de Norte a Sul é o equivalente a ir de Maputo a Durban, mas sempre dentro de água.

A história regista como seus primeiros habitantes as tribos Aka Fula (os que cavam o solo), clãs de pigmeus que não resistiram às grandes migrações Bantu, que se instalaram em sucessivas vagasna região do lago, por volta do ano 1000 d.C. A maioria dos moçambicanos que hoje habitam a provincia são de etnia Ajaua ou Nianja, estando os segundos maioritariamente instalados nas zonas limítrofes do lago. O nome  Niassa não é mais, aliás, do que a palavra Nianja para lago; Nianja, por seu turno, significa habitante do lago.

Há ainda uma forte população Macua nas zonas limítrofes da vizinha província de Nampula. Nas aldeias nianja, contam-me os maiores que as almas dos pigmeus ainda deambulam pelas águas e que podem ser vistas ao amanhecer, bruxuleando entre as ilhas.

Cerca de 600 anos depois dos Bantu, os portugueses vieram multiplicar a diversidade étnica da região, e dar a conhecer o lago à Europa. Em 1616, Gaspar Bocarro elabora uma colorida descrição da zona sul do Lago e de boa parte da que é hoje a provincia do Niassa, falando do

‘lago que parece um mar’.

A corrida pelo controle do continente levou no entanto Livingstone a anunciar à Europa, em 1859, a sua descoberta baptizando-o solenemente com o nome de…lago!

De facto Livingstone aportou em Quelimane, seguiu por Moçambique dentro acabando por encontrar o capitão Cândido da Costa Cardoso, oficial português instalado na área. Cardoso terá aconselhado Livingstone a seguir a rota para Oeste e inquirir sobre o caminho para o lago, através da palavra ‘Niassa’. Livingstone chega por fim às suas margens, ‘descobre-o’ e acredita baptizá-lo.

O viajante escocês regressa em 1868, ano que ficou conhecido quer entre os colonos portugueses, quer entre as populações Nianja, como o ano do ‘vapori’, numa referência ao facto de Livingstone, na sua última viagem, ter subido o Zambeze num barco a vapor.

No Niassa contemporâneo – e no que ao aproveitamento turístico do lago concerne – os desafios imediatos para Moçambique, parecem ser a capacidade de promover o lago enquanto destino turístico de altíssima qualidade, conseguir tornar os preços de viagens até ao local competitivos em termo regionais – de momento um turista que venha, por exemplo, da Europa terá de gastar cerca de 60.000 meticais só para lá chegar, o nacional não menos de 15.000.

O envolvimento das comunidades locais, e a manutenção do delicado equilíbrio ecológico, são outros elementos a considerar, quando se equaciona o desenvolvimento futuro de toda a região.

Se nas aldeias ribeirinhas do município de Metangula, é possível encontrar alguma oferta de alojamento a preços muito acessíveis – em Chuanga uma dormida modesta custa cerca de 600 meticais – é no Nkwichi lodge que se podem explorar o conjunto de possibilidades de lazer em feliz comunhão com a natureza, que o lago proporciona.

O projecto nasceu em 1999 por iniciativa do ‘Manga Wilderness’. Esta sociedade, constituída maioritariamente por europeus, decidiu investir turística e socialmente na região.

O resultado é brilhante: ao fim de 14 anos investiram mais de trinta milhões de meticais nas comunidades englobadas na área do projecto – 16 aldeias – criaram 12 escolas, uma quinta comunitária, são um circuito de escoamento fiável para os produtos agrícolas produzidos e dão emprego directo, no lodge, a 44 pessoas. O investimento anual é de cerca de 3 milhões de meticais. Quanto ao lodge uma só palavra: espectacular!

No dia em que chegámos o lago tinha acordado nervoso, as rochas, que ocultam o lodge de quem passa no lago, sofriam um assédio ruidoso de fortes e brancas vagas.

Anichado num recanto peninsular do Niassa,a que só se pode aceder por via marítima, o empreendimento é composto por seis chalés enormes, absolutamente integrados na paisagem e totalmente construídos a partir de materiais locais, abertos ao exterior para aproveitar a brisa refrescante que sopra do lago, numa zona em que raramente faz frio. O lodge pode albergar um máximo de 24 pessoas.

A quase totalidade da energia eléctrica que consome é de origem solar, e quase tudo é reciclado e aproveitado na quinta comunitária. As camas são construídas a partir de troncos, os armários são feitos aproveitando canoas envernizadas, os roupeiros são produzidos nas aldeias vizinhas.

A casa de banho da cabana que ocupávamos ficava ao ar livre, num pequeno promontório sobranceiro ao lago. Requinte, bom gosto e cuidado desenham os pormenores e transformam o rústico em luxo – jantares à luz das velas, mesas com imaculadas toalhas brancas, mata-bicho na praia e a qualquer hora do dia, abrilhantado por um cortês bando de macacos.

Em frente um mar que faz empalidecer o lápis-lazúli, e uma aveludada areia branca. É possível empreender longas, estimulantes e solitárias caminhadas pelo areal, tendo como única companhia o sussurro do lago, os gritos dos macacos e o som que nasce quando os pés nus se afadigam na areia

É, aliás, do gemido que o caminhar na areia desperta, que nasce o nome do local – Nwkichi. Não é um alojamento: é uma experiência preciosa.

 

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