O universo do fantástico e a pluma metafísica em “o mundo que iremos gaguejar de cor”

Por Adelino Timóteo, escritor e jornalista

Há livros que nos engancham entanto que leitores dos mesmos, livros que os percorremos pela mão do narrador, que apossando dos nossos sentidos, nos colocam num exercício lúdico e de deleite, e que nos abstraem do tempo, mesmo que radicados numa realidade às vezes decadente. E são livros que têm a potencialidade de nos levar a embrenhar num mundo recriado com uma certa plasticidade, com uma espátula que embora radicando no nosso chão, suscita-nos a evasão dessa mesma realidade, colocando-nos numa atmosfera fresca, limpa e fantástica.

O livro de pedro pereira lopes (o autor escreve as iniciais do seu nome em minúscula e começa as frases com minúsculas, depois do ponto final, num estilo original, encontrado também em valter hugo mãe) tem essas características, o que propicia a vontade e o desejo de mais de uma leitura, pois são elementos catalisadores da emoção e do prazer do texto a limpeza e a clareza com que o narrador nos brinda, depois de convocar para um concerto, onde ele nos vai amestrando com estórias e algumas ideias filosóficas.

Aos troncos da cidade “lhes faltam a alma!” A imigração do ser humano para objecto material árvore. E a escrita é exactamente essa transmutação, uma abstração do mundo da realidade para o das ideias.

No primeiro conto, destaco ainda a seguinte ideia: “no caso do tronco, pequenito, um exame com os olhos bem abertos, palmo a palmo. depois há um momento, o entendimento entre a vontade do artista e a vontade do tronco. só assim o artista pode fazer arte. percebeste?”

Do segundo conto, “o cobrador”, destaco: “o fogo que sai pelos olhos das pessoas, o ar cálido que deitam pelas narinas, pela boca, sufocam-me. não sinto o oxigénio, ocorrem-me náuseas.”, a ideia do inferno.

O que nos anima neste livro são as vezes sem conta que as personagens de pedro pereira lopes nos assediam com os seus pensamentos, como se de o autor se tratassem: “olho para trás, alguns têm as cabeças reunidas, segredam e soltam gargalhadas de meter inveja. riem-se de mim, não duvido.”

pedro pereira lopes apodera-se de nós com essa leveza indiciando que ele está em
pleno gozo e consciência de que a escrita é um exercício de memória, só para parafrasear Tudorov. Um exercício de memória que não só se limita à reprodução mecânica, mas à reflexão de quem a estrutura e de quem a consome, criando ilusões, colocando o leitor no lugar de narrador e o autor no lugar de espectador do universo por este criado. No conto “reza as tuas orações todos os dias” pedro pereira lopes nos transmite esse paralelismo, que se nos coloca como sob o efeito de uma magia: “avizinhava-se uma tempestade, as árvores curvavam-se e as folhas caíam formando um descontínuo mas aveludado tapete.” Ou se quiserem, atestem aqui: “sebastião era um fluxo de lágrimas. boas-vindas não acreditava no que via, o filho era o estranho de chapéu de palha de aba larga.”

A escrita de pedro pereira lopes torna-se um acto orientado para o fingimento, de tal modo que ele faz como se nada fosse com ele, como se depreende do conto “o irmão de jesus”: “não tem idade para contar histórias.”

Ele tem consciência do caos que cria, da subversão da atmosfera que fazemos parte, da desconstrução do mundo para criar uma nova ordem, uma nova realidade, que além de se inscrever na teoria do absurdo (leia-se o caso de “onde estão as pessoas que fugiram da nossa vida” e “o irmão de jesus”) afinal é-nos comum: “a vida é o que é, deus não tem pena de ninguém.”

Ao lermos este livro perpassa-nos algo tal que o autor que nos leva ao caos, que desconstrói a realidade, propõe-se não só a criar uma nova ordem, mas sobretudo a espantar o medo, os fantasmas que o dominam e que são a matéria alvo dos seus escritos: a fome, a miséria, a desgraça e corrupção. Mal esses que enfermam o seu universo. “mukungu morreu naquela mesma noite, com as mãos do filho sobre o seu pescoço, do filho que fazia de contabilista./ o velho não mendiga mais o sol, mas o sol, pelo menos o sol daquela avenida escarpada, tem saudade de mukungu”, tal como se lê no conto “mukungu, o mendigo do sol”.

Da leitura deste livro desejo que o leitor se veja transladado com a tontura de quem inventa; que da leitura deste livro o leitor se veja povoado e a viver a realidade física e (i)material como o que nos legam essas nostálgicas personagens cheias de vida, como malangatana, mukungu, beno, jesuína, “a amiga da solidão”, que fazem corpo com o chão que é matéria onde é fermentado o exercício lúdico que aqui se insinua.

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