Madina Chume (Face of Africa) ‘A moda é aquilo que vivemos todos os dias’

Com apenas 25 anos, a modelo moçambicana já ostenta a coroa ‘Face of Africa’, título conquistado em Dezembro do ano passado após a sua participação na edição 2016 do concurso Mrs África, realizado na África do Sul. A dignificar o título e o país que representa, Madina Chume já tem agendado um desfile que terá lugar em Dezembro, na China. À VIVA!, a modelo confidenciou que o desafio neste concurso não será necessariamente o desfile, mas sim um outro aspecto que envolve toda a nação moçambicana.

Depois daquela coroa…o que é feito da Face of Africa?

314187_225249327525399_6849209_nInfelizmente perdi um concurso de moda que aconteceu em Julho em Las Vegas, nos EUA. O meu visto não foi emitido a tempo. No entanto, tenho um concurso já agendado para Dezembro, no qual estarei a representar Moçambique na China. Estou já na fase de preparação. O concurso pede que cada candidata escolha um tema relacionado com o seu país.

Que tema pensa propor?

Gostava depropor algo relacionado com a saúde, mas estou ainda a tentar especificar a área. Estou a trabalhar com a empresa que me está a agenciar. Acho que vai ser um processo muito longo. Além do tema deverei levar roupas que se enquadrem nos temas das galas que serão apresentadas. Felizmente, quanto a esta parte já tenho artistas que estão a trabalhar comigo.

Que dificuldade está a enfrentar na questão do tema ‘saúde’?

Infelizmente não é fácil chegar a um hospital, ou a uma comunidadee solicitar dados sem apresentar um documento formal. Ainda que tente explicar a causa, não tem sido fácil. Essa é a parte na qual peço auxílio ao Ministério da Saúde, porque o Ministério da Cultura já está a fazê-lo, e sinto que se as duas instituições se unissem, as coisas seriam mais facilitadas. Por eu estar a representar Moçambique, há tanta coisa que podia propor que fosse apoiada na área da saúde, e com a ajuda dessas entidades conseguiria identificar a área específica da saúde a que o apoio se deve cingir.

O que a motivou a escolher a área da saúde?

A proposta veio dos meus patrocinadores e achei bem. É fácilpercebemos o quantoa área da saúde precisa de apoio.

Além dos preparativos para esse evento a que mais se tem dedicado?

248815_190033527713646_7272888_nEstou no processo de criação de uma ONG. Estou também a aperfeiçoar o meu inglês, porque o meu trabalho exige isso. Estou ainda a concluir a minha licenciatura em Administração e Gestão de Empresas. Em Moçambique a moda ainda não é considerada profissão. É algo que só vou poder aproveitar até quando der, sem contar que sou mais chamada fora do país, quando estou cá dedico-me à escola. Com isso quero dizer que assim que terminar a minha formação irei aliar aquilo de que gosto (ONG) ao meu conhecimento científico próprio.

A que se dedicará a ONG?

A ideia é criar-se uma escola que sirva de local de convívio entre crianças com e sem deficiência. Não queremos que nenhum destes grupos se sinta descriminado, que não se criem barreiras aos sonhos de uma criança. Provavelmente até Outubro faremos uma abertura oficial.

Quando e como é que entra na moda?

15400336_1314300435286944_2237093382223961023_nEntrei na moda a partir do concurso Ms e MrCoconuts que aconteceu em 2005. Ainda era novata, consegui adquirir alguma experiência. Neste primeiro concurso consegui ir até a penúltima eliminatória. Não fiquei triste porque a minha emoção era ter estado ali, ter sido vista a desfilar, para mim isso já era suficiente. Em 2007 fui participar no concurso Face Vodacom. Na altura estava a frequentar o nível secundário. Era um concurso sobre o qual se falava muito na televisão e decidi participar. Não avisava ninguém para que, caso desse errado, ninguém soubesse. Dessa vez fiquei triste quando fui eliminada. Na altura estava a viver na Matola, por isso representava a província de Maputo. Cada uma tinha que colher votos, por isso daquela vez decidi anunciar, colei panfletos, etc. Fiquei em baixo quando fui eliminada, nem tive vontade de assistir ao resto do concurso pela televisão.

E que percurso seguiu então?

13775758_1177873782262944_1064944765812113916_nEm 2008, quando vi o anúncio do concurso para o Mozambique FashionWeek. Decidi voltar a tentar. O casting durou uma semana e acabei apurada para desfilar no evento. Foi a partir daí que comecei a entregar-me de corpo e alma. Desde então passei a fazer parte do concurso, até que em 2013 fui convidada a fazer um spot publicitário de uma operadora de telefonia móvel. O contrato era de um ano. Em 2015 fui chamada para ser a cara de um estabelecimento hoteleiro, cá em Maputo. Através dessa publicidade, em 2016 o mesmo hotel na África do Sul chamou-me para umtrabalhofotográfico, fotos estas que foram expostas num aeroporto sul-africano. Nessa altura já se comentava muito, nas redes sociais, sobre o Ms África. Decidi participar mais uma vez. Em Moçambique a selecção aconteceu num estabelecimento hoteleiro na cidade de Maputo, e decorriaem várias categorias: moda, artes, música. Estava muito cheio. Só para a moda eram mais de 600 candidatos. O processo de selecção durou quase uma semana. No último dia informaram que só apurariam uma pessoa para cada categoria. Já na última eliminação não tinha esperanças, até jejuei no dia anterior. Quando anunciaram que eu seria a representante de Moçambique não acreditei. Muita gente votou em mim, essa é uma coisa pela qual devo agradecer. 

E depois…?

17457303_1414871558563164_4659298297561446175_nComeçou a preparação para a viagem. O concurso aconteceria na África do Sul, e uma das condições era que o candidato arranjasse patrocínio para as despesas de viagem e alojamento. Semanas antes do concurso tivemos vários encontros na África do Sul para ensaios. Incrivelmente, até dois dias antes do concurso seiniciar eu não tinha conseguido patrocínio. Busquei tudo, pela televisão, jornais, redes sociais, rádios. Graças a Deus, na última hora, quando já estava em desespero e não contava viajar, graças a Deus me chegou um patrocínio da EikoGroup, uma empresa de micro-finanças. Cobriu todas as despesas. É por isso que digo que as coisas só acontecem quando Deus quer. Pela conquista devo também agradecer a James Martins, a Eiko Group e a minha família.

Como é que foi?

O concurso começava segunda-feira, eu cheguei num sábado. Fiquei sozinhatodo osábado, só no domingo é que começaram a chegar as outras participantes de outros países africanos. Naquele momento confesso que fiquei aliviada, senti que a concorrência não era tão forte. Essa tranquilidade acabou quando começaram a chegar as restantes. Das 30, apenas quatro eram negras. Lembro-me que fiquei tão cheia de medo, liguei para os meus familiares cá em Moçambique, eles só me incentivavam a orar e ter fé. Nem os 16graus do aparelho de ar condicionado conseguiam me refrescar e tranquilizar. Nunca tinha passado por coisa igual, mas hoje digo graças a Deus que tudo correu bem. Passámos por várias galas antes do anúncio do vencedor.

Qual foi a sensação no momento do anúncio?

15940711_1351596641557323_8137274454947134478_nIncrivelmente todas as participantes tinham um acompanhante, menos eu. Estava completamente sozinha. Quando se fizessem ao palco só recebiam aplausos, quando chegasse a minha vez dava sempre um frio no estômago, porque me sentia sozinha. No dia da nomeação, quando anunciaram que para a categoria Face of África a vencedora era MadinaChume estava totalmente aérea, continuava com um olhar perdido, só quando a moça ao meu lado me beliscou a ‘ficha’ caiu. Eles até tiveram que repetir. Foi uma emoção e tanto. Gritei, abracei, até o publicou pôs-se a rir, ao mesmo tempo que aplaudia. Envergar a faixa e a coroa foi um momento único. Para aumentar a minha alegria, quando a gala terminou as pessoas vieram me pedir fotos, felicitar. Foi muito bonito.

Eram 26 brancas contra quatro negras, das quais uma foi eleita vencedora. Com que impressão é que saiu relativamente à questão do racismo?

A princípio pensei que fosse haver muito disso, até porque maior parte das concorrentes vinha das províncias sul-africanas. E eu acreditava que o prémio ia para umas delas, mas não, não houve nenhum resultado que reflectisse racismo.

No próximo ano haverá nova edição do concurso, já foi contactada por alguma moçambicana que esteja interessada em concorrer?

Até ao momento não. Lancei uma nota nas redes sociais a anunciar que a inscrição já estava aberta, mas ainda ninguém entrou em contacto comigo para falar a respeito.

Na sua opinião, a moda é necessariamente aliada à magreza ou nem por isso?

16426007_1367781399938847_6615429982981050597_nNão. Há uma tendência de se olhar para uma mulher magra e logo se comentar ‘tem corpo de modelo’. Não é assim. Para ser modelo não precisa necessariamente ter um corpo magro. Cada um pode ser modelo do seu jeito, fazer a moda de acordo com aquilo que é, não importando o aspecto físico. A moda é uma mistura. A moda é aquilo que vivemos todos os dias. A cada dia surgem novas tendências

No seu caso, qual é o modelo de moda?

No meu caso, a moda é ser manequim, estar na passarela, desfilar com uma roupa e as pessoas estarem a olhar, admirarem as peças e ainda a pessoa que as traz. As roupas devem estar consoante o meu quadril.

Se a sua moda está aliada ao corpo, como é a sua dieta alimentar?

10006453_708961389154188_1335727789_nHá pouco tempo descobri que sofro de anemia, estou no processo de recuperação. Esta anemia não está associada a nenhuma dieta. Tenho tentado alimentar-me um pouquinho mais, pelo menos até antes de Dezembro. Neste momento como de tudo um pouco, sem contar que nunca tive problemas de oscilação da massa corporal, sempre fui assim, e sempre frequentei ginásio.

 

 

Madina Chume

Modelo de 25 anos

Estudante do 3o ano da licenciatura em administração e gestão de empresas

Fotos: tiradas da conta do facebook da modelo

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